segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Que Futuro para os Cursos de Humanidades - O testemunho de Sónia Godinho, uma ex-aluna da escola

No passado dia 7 de Janeiro recebemos uma visita especial: Sónia Godinho, uma ex-aluna da escola, veio partilhar a sua experiência académica e profissional com atuais alunos da área de Línguas e Humanidades. A iniciativa insere-se nas atividades da coordenação de diretores de turma e tem como principal objectivo trazer à escola antigos alunos para partilharem as suas experiências e ajudarem os atuais alunos a fazer as suas próprias escolhas. Nesta sessão participaram as turmas do 10º M, 11º L e 11º N, os professores Luís Gonçalves, Fátima Oliveira, Isabel Frade e Carlos Café e a coordenadora dos diretores de turma, Maria José Duarte. 

Sónia Godinho tem um percurso brilhante. Como aluna da escola, terminou o secundário com elevadas classificações. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa em 1997, tendo concluído o 5º ano da licenciatura na Universidade de Estrasburgo, no âmbito do programa Erasmus. Em 2005 obtém o Curso de Pós-graduação em estudos jurídicos e económicos da União Europeia na Universidade de Paris, Panthéon-Sorbonne/Collège des Hautes Études Européennes Miguel Servet e, em 2008, o Curso de Mestrado em Ciências Jurídicas-Comunitárias, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Do seu percurso profissional destacam-se um estágio no Parlamento Europeu (Estrasburgo), um estágio na Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia (Bruxelas), o exercício da advocacia na Sociedade de Advogados Simmons & Simmons Rebelo de Sousa (Lisboa e Bruxelas), assessoria jurídica do Presidente da Câmara de Lisboa, Dr. António Costa e, desde Janeiro de 2009, Legal Officer na Direcção-Geral da Comissão Europeia responsável pela aplicação dos programas e projetos de cooperação externa na Ásia e Ásia Central, funções desempenhadas em Bruxelas e, atualmente, em Díli (Timor).

De um modo cativante e informal, Sónia Godinho expôs aos nossos alunos o seu percurso académico e profissional, não deixando de partilhar também as dúvidas, incertezas e desilusões que o mundo do trabalho provoca a um jovem licenciado ávido de realizar os seus sonhos. Destacou a importância de uma educação sólida e elogiou o muito que aprendeu na sua passagem pela nossa escola. Aconselhou os presentes a aproveitarem ao máximo os conhecimentos que a escola proporciona e a estarem disponíveis para novas experiências e novas aprendizagens. O seu caso pessoal, sublinhou, é um exemplo disso mesmo: o seu sonho de infância era ser advogada e hoje sente-se realizada numa carreira em que a sua formação jurídica, embora importante, não é a valência mais relevante.
Ao longo desta interessante “palestra” informal, Sónia Godinho foi respondendo às perguntas curiosas colocadas por alunos e professores e, no final, trocou impressões com todos aqueles que ficaram para uma última conversa mais pessoal.

Para que o seu testemunho pudesse ficar registado na primeira pessoa, Sónia Godinho respondeu ainda a uma pequena entrevista realizada pela aluna Maria Miguel Café, do 11º L, que a seguir se reproduz.
A escola agradece a disponibilidade demonstrada e os ensinamentos e incentivos deixados aos nossos alunos de Línguas e Humanidades. Assim se prepara um futuro... com futuro!


ENTREVISTA A SÓNIA GODINHO
(Entrevistadora: Maria Miguel Café, 11º L)

1. Já viajou muito e visitou vários países. Se tivesse que escolher um país onde residir permanentemente, qual escolheria? Por quê?
Curiosamente escolheria Portugal, o meu país. A verdade é que depois de já ter viajado por muitos países e de ter vivido em alguns deles, há a vontade de regressar a "casa", ao nosso país, pois este será talvez o único sítio onde não nos sentimos estrangeiros, onde tudo é familiar e onde não temos necessidade de fazer um esforço de compreensão em relação ao que é diferente e novo. Sair de Portugal também me ajudou e muito a valorizar e a apreciar o que de bom e bonito o nosso país tem. Estar fora implica não poder desfrutar disso. Costumo dizer que por vezes é preciso dar a volta ao mundo para querermos finalmente regressar a casa!

2. Houve algum momento em que lhe apetecesse abandonar tudo e regressar a casa?
Naturalmente que sim. Sair do nosso país implica sair da nossa zona de conforto, começar do zero a nível social e profissional. Nem sempre é fácil e, sobretudo no início, custa um pouco. Temos momentos de solidão e sentimo-nos desenraizados, sem amigos e longe da família. Mas também já aprendi que é preciso dar tempo ao tempo, e ao fim de algum tempo acabamos por encontrar o nosso lugar mesmo num país estrangeiro. Fazemos novos amigos, criamos a nossa rotina e começamos inclusivamente a desfrutar das coisas boas que esse país oferece e que não encontramos em Portugal. E vamos ficando, até que haja uma razão para voltar a partir como um novo desafio profissional.

3. Afirmou que as experiências que já viveu a fizeram crescer como pessoa. Que mudanças principais destacaria?
Aprendi sobretudo a ser uma pessoa mais tolerante, a aceitar a diferença e a não ter medo dessa mesma diferença. Hoje em dia, a principal razão pela qual continuo a viajar e a trabalhar em países estrangeiros é precisamente essa procura da diferença, a vontade de conhecer outros povos e culturas. Perceber que há maneiras distintas de fazer as coisas e de encarar a vida que são tão válidas e interessantes como as nossas, e isso faz-nos crescer e muito. Aprendi também a ser uma pessoa mais tranquila e autónoma, ou seja, a não ficar stressada perante os problemas ou obstáculos que se colocam no nosso caminho e a saber encontrar soluções para esses mesmos problemas e obstáculos, sem desanimar ou ficar à espera que alguém os resolva por mim. 

4. De que tem mais saudades quando está fora de Portugal?
Da família e dos amigos de longa data. Mas também tenho saudades das nossas praias, sobretudo as do Algarve, do oceano Atlântico, do clima temperado, da comida (uma das melhores do mundo, sem sombra de dúvida!), de ouvir falar português na rua, da luz da cidade de Lisboa. 

5. Para terminar: que conselho daria a um jovem estudante de Línguas e Humanidades?
Daria desde logo os meus parabéns a esse jovem por ter escolhido a área das Línguas e Humanidades, uma porta aberta para terem uma profissão apaixonante, mas também para descobrirem o mundo e viverem uma vida desafiante. Na era da globalização, as línguas são muito úteis e importantes para se ter sucesso no mundo profissional. Além disso, permitem-nos entrar em contacto com pessoas de outras nacionalidades e conhecer os seus "mundos", sem que seja preciso ir viver para fora de Portugal. Já as Humanidades, como a literatura, a filosofia, a história, trazem-nos o melhor instrumento de todos, o conhecimento, para vivermos a nossa vida em liberdade, sem nunca nos esquecermos dos outros à nossa volta. 

Esta é uma notícia enviada pelo professor Carlos Café, a quem se agradece.